quinta-feira, 21 de maio de 2026

(iniciado em 18/2/2020. terminado em 21/5/2026)

 

o terror é imenso
no momento da escrita.

o começo era colo,
abraços, e carinhos.
não mais.

o terror é imenso
por não haver mais braços.

na sequência os passeios,
o cuidado, e a busca na escola.
não mais.

o terror é imenso
por não haver mais zoológicos.

ainda cedo o café-da-manhã,
o escorregar na barriga, e os desenhos.
não mais.

o terror é imenso
por nunca mais haver pães cortados em forma de dedinhos.
(o terror é imenso,
também,
por ter que descobrir se gosto mesmo de pão escuro, ou se o gosto era apenas pelo amor)

depois o balanço,
a corda-do-tarzan, e as brincadeiras na areia.
não mais.

o terro é imenso
por não haver mais quem alcance as cordas presas no teto.

já criança a exploração da oficina,
o carimbo, e o martelo

 

....

 

o terror é tanto, que desisto de escrever 

paternidade

o calor que amacia a carne
e produz choro é o mesmo
que irrita o último da alma

faz de mim melhor
na necessidade de encarar
o lixo que habita o que sou
e insiste em emergir da lagoa
sempre que o peito aperta

é um calor que visita o coração
e emana o cheiro de amor
que também é raiva e ânsia
e medo e alegria
e sustos e potências

é o calor do calor feito calor

que prazer ser aquecido

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

refluxo.
era descido
e quer voltar.

por que não se vai?
o que mais devo digerir?

fico engasgado, gosto
ruim na boca.
há medo de hálito, mas
ainda mais medo de
que o vômito torne
violência o que, supus,
deveria ser comido/a.

pigarreio. sinto podre a
saliva. queria apenas engolir,
infreno!
 

será este o problema? engolir
o inferno realmente parece
exagerado.

domingo, 14 de setembro de 2025

primeiríssima infância

aos choros de Ipê

precisa chorar sim
porque tem coisa que só o choro
extravasa

precisa chorar sim
porque o choro fortalece o
pulmão

precisa chorar sim
porque o choro limpa as
dores

precisa chorar sim
porque todo mundo 
chora

e

precisa chorar sim
porque quem não chora é
covarde

mas chorar
como viver
não é
preciso

domingo, 20 de julho de 2025

uma vertigem de madrugada

vivo num território
povoado de meus demônios.

por muito tempo
entendi-os fantasmas,
mas errava.

são demônios.

não assombram nem gemem,
mas causam ansiedade e pânico.

covarde, nunca lhes perguntei
o que faziam por ali. talvez
não quisesse saber, por 
já estar acostumado.

a questão é que demônios existem,
ensinaram os filmes de terror,
e nem sempre têm o bom senso
de não se demorarem.

e fico, refém desarmado
— já que nunca me deram armas —,
a conviver com meus demônios.

não os quero, e o problema talvez seja
justamente achar que querer muda alguma coisa.
o real não deve nada às expectativas que faço dele,
e os demônios não estão lá só por sempre terem estado.

cumprem uma função.
e eu cumpro a de não os querer.
exercício inútil.

sexta-feira, 23 de maio de 2025

montei a cômoda.


montei a cômoda não por 

querer a comodidade

mas por produzir

afeto


sangrei o pé no caminho

terça-feira, 22 de abril de 2025

sobre ser fora da casinha

a casa onde caibo
não cabe em mim
porque sou maior
que eu

fico fora dela
porque a carrego comigo

caramujo ou beduíno
tenho a casa movente
assim como eu
porque sou movente 

sou todos e sou nenhum
sou vários e sou um

erro as paralelas e as erro 
porque as quero tortas

não há casinha:
há imensidões

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

gris

gris.
como a vista, gris;
como a comida, gris;
como a alma, gris.

grande bobagem!
logo v(ê)em as cores,
embotando a tristeza
a fome e a dor.

no entre, sem fim
de possíveis, sem fim.
de vontades, sem fim
de afirmações e negações.

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noto repetir e pergunto
o porquê. Idiota!
repito para matar a mesmice.
repito para provocar o novo.
repito para testar a hipótese 
de que todo dia,
'inda que sendo dia,
é novo.

finalmente me foi dada
a chance de usar
nova tinta.

é mais clara.
é mais líquida.

pingou e 
sujou o papel.

atravessou.
que bom.

há tinta, por toda parte
a colorir mão, mesa rosto.

não pede licença ou tolera
a organização 
mas permite, em meio ao
caos, a escrita.

a perna direita balança 
ansiosa por algo que não
sei o quê.

a mão esquerda escreve.
até para isso sou ambidestro.
talvez a cabeça, trans
borda de tinta,
seja o necessário 
para viver.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

promissões

plantar uma árvore,
ter um filho,
escrever um livro.

dizem que é o que
cabe. não sei verdade, e quero
continuar testando.

ah, e cuidar. cuidar
de mim, e delas, e
de um futuro. que não
planejo. construo.